02/06/2026
Manuel Soares Oliveira:
UM PAÍS DE PILHA-GALINHAS
O país acordou sobressaltado, com todos os meios de comunicação a darem em directo uma megaoperação da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista.
Todo este alvoroço por causa de uns supostos contratos manhosos em juntas de freguesia de Lisboa. A Polícia Judiciária fala em cerca de dois milhões de euros sob investigação. Conhecendo os nossos hábitos, quando isto chegar ao fim da linha provavelmente já vamos andar a discutir umas avenças, uns ajustes directos e meia dúzia de favores entre amigos. O mais provável é que também não vá dar em nada, a exemplo de outros processos que apodrecem nas gavetas da investigação. São processos de grande alarido mediático e que nunca se concluem.
Quando pensamos em todos os processos envolvendo políticos nos últimos anos, chegamos à conclusão de que somos um país de ladrões de galinhas. O problema da corrupção portuguesa não é ser corrupção. É ser uma corrupção sem ambição.
Somos um país de pilha-galinhas. Não temos oligarcas, não temos magnatas, não temos génios do crime financeiro. Temos vereadores que arranjam empregos para os sobrinhos e presidentes de junta que martelam contratos de jardinagem.
Mesmo a operação Influencer só serviu para que o António Costa se tivesse safado elegantemente para outras paragens. Se perguntarmos ao cidadão comum o que foi a operação Influencer, ninguém saberá explicar. Da Operação Influencer, a única coisa de que as pessoas se lembram são os milhares de euros encontrados dentro de livros. E provavelmente nem era isso que os investigadores andavam à procura.
Nisso, sou grande fã dos políticos brasileiros. Lá, quando é para roubar é à grande. No anterior governo Lula roubaram tanto a Petrobrás que conseguiram levá-la quase à falência. Uma empresa de biliões de dólares. Isso é que é gatunagem comme il faut. Se é para roubar o contribuinte, ao menos que valha a pena. Apanhado a limpar o cofre da Petrobrás dá uma certa panache, apanhado a martelar o contrato do lixo da junta de freguesia é uma vergonha.
E nisso o Brasil dá-nos lições. Não é por acaso que um brasileiro é um português à solta. Nós roubamos galinhas, eles roubam petrolíferas. Foi no Brasil, com o inigualável Governador Adhemar de Barros, que surgiu o famoso “Rouba mas faz”. Adhemar gostou tanto da frase que a usava descaradamente. Nos discursos dos comícios dizia que “nestas calças nunca entrou dinheiro do povo”, e o povo respondia em coro: “Governador está de calças novas”.
Nós ainda tivemos um acontecimento singular na pessoa do Eng Sócrates. Foi claramente alguém que tentou dar alguma dignidade às falcatruas evitando que fôssemos sempre um país de pilha-galinhas. O Eng.º Sócrates foi talvez a nossa única tentativa séria de sair da III Divisão da vigarice e chegar à Liga dos Campeões da falcatrua.
Não surpreende a admiração que o Presidente Lula tem pelo nosso Engenheiro. São ambos artistas que reconhecem o talento alheio.
Mas o Engenheiro foi quase um acidente histórico, um fenómeno irrepetível.
Como Salvador Sobral a ganhar a Eurovisão. Durante uns breves instantes acreditámos que Portugal podia competir ao mais alto nível. Depois voltámos à nossa zona de conforto: os ajustes directos, os primos, as juntas de freguesia e os contratos para cortar relva.
Somos um país de pilha-galinhas. E, pelos vistos, gostamos assim.