As raízes do sal em Aveiro
A exploração de Sal na região de Aveiro remonta a uma época anterior à existência da própria Ria de Aveiro. O primeiro documento escrito sobre o salgado aveirense é anterior à fundação da nacionalidade. A instabilidade da barra (isolamento em relação ao mar) representou um factor decisivo na variação, ao longo dos séculos, do número e produção das salinas, que se traduz
iu por períodos de decadência, intercalados por períodos muito favoráveis à produção, como foi o caso em 1572 em que, dada a situação favorável do estado da barra, o elevado e progressivo índice comercial e marítimo, Aveiro se transformou num dos melhores portos de Portugal, havendo um grande incremento na comercialização de sal e na pesca do Bacalhau. Em 1808 abriu-se finalmente a barra nova (sistema artificial que permite a entrada de água do mar), facto de excepcional importância para o futuro de Aveiro e de toda a sua região. Morfologicamente, a Ria de Aveiro é um sistema lagunar. Neste sistema inserem-se os sapais que marginam as ilhas onde se encontram as salinas. Nas últimas décadas o sapal diminuiu sensivelmente nomeadamente devido à construção portuária. Na coluna de água habita um conjunto diversificado de seres. Além de bactérias e algas, temos ainda uma série de organismos, como os bivalves, caranguejos, anelídeos, peixes, etc. As salinas integram um conjunto mais ou menos complexo de valas, canais, tanques e lagoas de decantação e evaporação separadas por diques, taludes e marachas colonizadas pela vegetação típica dos sapais. As salinas, embora sejam um habitat artificial, são de grande valor para as aves aquáticas, permitindo um equilíbrio notável entre o aproveitamento económico de um recurso e a conservação de valores naturais. Ao interesse paisagístico das salinas, acresce o facto de constituírem verdadeiros santuários de biodiversidade mercê das diferenças de salinidade, profundidade e formações vegetais que se encontram no seu interior, permitindo a coexistência, numa área relativamente confinada, de grande variedade de organismos. Para as aves, as salinas possuem ainda o atractivo de não sofrerem a influência do ciclo diário das marés, mantendo uma reduzida altura de água, oferecendo-lhes portanto condições de alimentação e abrigo particularmente vantajosas. Das 30 espécies de aves da Ria de Aveiro, 2 utilizam quase exclusivamente as salinas, nidificando nelas. A Noroeste da cidade, estão situadas as marinhas de Aveiro. Nos anos 60, era o segundo distrito com maior número de salinas (270), sendo o primeiro o estuário do Sado (300). Destas, apenas 49 se encontravam em plena actividade em 1994, muitas delas em regime de aluguer. Presentemente, apenas 10 estão a trabalhar, sendo a marinha da Ilha dos Puxadoiros a única que continua a fazer sal de acordo com os métodos tradicionais e que o tem certificado. A época da safra tem início em Março, com a preparação das marinhas, decorrendo a extracção desde o fim da Primavera até Setembro/Outubro, altura em que começam as primeiras chuvas e é necessário cobrir os montes de sal que se foram acumulando ao longo do período de produção. O processo de extracção é, ainda hoje, totalmente artesanal. A vida do homem que faz a marinha – o Marnoto – é dura e a sua falta de instrução técnica é compensada pela sua larga e tradicional experiência. As alfaias que usa são seculares, o trabalho rudimentar e primitivo.