02/06/2015
EU SOU REAL
Pela primeira vez em quase 20 anos, a RE.AL e o Atelier Real não foram contemplados com apoios do Estado nos concursos abertos pela DGArtes. A primeira reação, à flor da pele, foi dizer basta. Chega. Não quero mais brincar a este jogo perverso, arbitrário, disfuncional. Mas passado o primeiro impacto e ultrapassada a crosta que se transformou a minha pele, a sensação de perplexidade começa a espalhar-se pelo corpo e agora, que já vai ao nível dos ossos, ficou claro que não sou transparente e invisível como quase nos fizeram querer. Sou REAL, estou aqui e estou presente.
Um projecto que atravessa um quarto de século de actividade intensa, interrupta e transversal; que se move pelas áreas da criação, investigação, acolhimento, residências e programação, de modo articulado e cruzado com a arte, a ciência e o quotidiano; com uma projecção e um impacto internacional como poucos; com um contributo inegável para a construção de uma ideia de comunidade artística e de um tecido afectivo, sensível e crítico em relação ao pensamento contemporâneo... não é reconhecido pelo Estado? Como é que se podem dar ao luxo de desperdiçar um projecto (em parte financiado pelo próprio Estado) já feito, já pronto, já provado, já testado, já implementado, já internacionalizado, já localizado, já entranhado e que, ainda por cima, é-lhes oferecido de bandeja, a preço da uva mijona? Como é que podem?
Se estivéssemos moribundos e a arrastarmo-nos pelos cantos, até compreendia. Mas estamos a passar por uma das fases mais vitais e vibrantes do nosso percurso. A REAL acaba de voltar em força ao trabalho coreográfico, com estreia no Maria Matos e no Rivoli na próxima temporada e com vários teatros europeus na calha para nos programar em 2016. E isso depois de alguns anos dedicada a um trabalho de investigação e sistematização minucioso (e, por definição, silencioso) em torno dos modos de operar da improvisação e da composição, em colaboração com universidades e escolas da Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Roménia, Rússia, Ucrânia ou Estados Unidos, só para mencionar os mais recentes. Por seu turno, o Atelier Real tem contribuído de uma forma absolutamente evidente para a dinamização cultural do país e da cidade de Lisboa, com uma programação pujante e reconhecida nas áreas da poesia, música, edição, artes plásticas ou performance. E se houvesse duvidas em relação à sua importância enquanto espaço de residências artísticas, reparem nos países de onde nos chegaram propostas para o Programa Matéria Bruta que acabamos de abrir: Portugal, Irão, Lituânia, Brasil, Suécia, França, Espanha, Áustria, Alemanha, EUA, Itália, República Checa, Holanda, Irlanda, Suíça, Bulgária, Bélgica, Taiwan, Roménia, Turquia, China, Coreia do Sul, Síria, Finlândia, Hungria, Chile, Japão, Polônia, Ucrânia, Israel, Sérvia e Egito...
Sim, cometemos a heresia de separar as duas estruturas em dois concursos diferentes (dança e cruzamentos disciplinares), porque as suas respectivas programações, dimensões e diferenças, corriam o risco de se asfixiarem mutuamente. Talvez não tenha sido a melhor opção. Mas daí a sermos penalizados, deixando-nos de fora dos financiamentos públicos, roça a negligência.
E (cereja em cima do bolo) têm o desplante de nos informar que "foi declarada a inexistência da fase de audiência dos interessados" prevista por lei (onde poderíamos rebater várias imprecisões e omissões concretas que fizeram a nossa pontuação baixar dramaticamente), revogada por se considerar que isso atrasaria muito a entrega dos financiamentos ás estruturas. O quê? Importam-se de repetir? Esse argumento seria justificável se as causas tivessem sido externas (um incêndio, um vírus informático, uma dúvida de Cavaco Silva), mas como é que alguém que promove um concurso para 2015 (que só abre em dezembro de 2014 e fecha no final de janeiro de 2015) e só divulga os resultados no fim de maio (após uma média de 2,5 encontros por mês por parte do júri), vêm dizer que, por questões de tempo, não haverá audiência de interessados?
Shame on you!
Esta é a prova provada de que o sistema colapsou, entrou em pane, fez tilt. E que é tempo de fazer zoom out e tentar que esta situação não passe impune e desapercebida. E, sobretudo, que sirva para alterar profundamente a lógica do sistema. Não por mim, que tenho os meus meios e redes e formas de continuar a trabalhar (se não for aqui, será lá fora), mas por Todos, como explicitou de forma magistral e sensível o Andre E. Teodósio no texto re-posto em baixo.
Vai ser difícil articular nas próximas semanas a relação entre esta luta, a sobrevivência do dia a dia e o trabalho artístico mas, lamento-vos dizer, estamos aqui para durar. Vão ter que levar connosco.
Andre E. Teodósio
Pequeno apontamento sobre Todos:
Muito antes, mas assim muiiiiiiiiiiiito antes, de eu ter acesso a recursos para fazer teatro ou mesmo anteriormente à Praga ser reconhecida por instituições que em larga medida devem apoiar todo o tipo de projectos (a isso se chama 'de interesse público') cerca de 3 criadores/estruturas, e pondo metáforas de parte é interessante e não é por acaso que tenham sido na maioria mulheres!, foram fundamentais na nossa emergência e podemos também afirmar responsáveis por aquilo que hoje temos como mecanismo de complemento à produção: concursos públicos, reclamar espaços de diferenciação na objectificação e um entendimento de arte como ciência da experiência com tudo o que isso acarreta (da teoria ao processo e aos mecanismos de relações a estabelecer). Essas pessoas foram Lucia Sigalho, Monica Calle e Teatro Cão Solteiro (a saber Paula e Mariana Sá Nogueira com Marcello Urgeghe). Estranho que tenham todas sido arrasadas pelo mesmo mecanismo que ajudaram a fundar!!!! Mas continuemos no caso especifico e óbvio que aqui me trouxe: foi o Cão Solteiro que me montou o único elemento cenográfico, a saber uma lâmpada, no meu segundo espectáculo em nome individual (sim, eu sou pouco sabedor dessas coisas práticas); foi o Cão Solteiro o primeiro grupo de teatro a querer fazer uma co-criação com a Praga assim vindo do nada e com um grupo que aparentemente pratica uma maneira de fazer 'oposta'. O mesmo Cão Solteiro que nos empresta consecutivamente coisas (de objectos a espaço a mão de obra), o mesmo Cão Solteiro que me dá e me deu sempre desde tenra idade carta branca criativa mas que também apoiou e apoia grupos emergentes como os Medalha d'Ouro, Plataforma 285 just to name a few e que alberga outros que já foram arredados pela produção cultural hegemónica, o mesmo Cão Solteiro que ajudou a elevar o teatro da mera animação de textos como confirmação cultural (inexistente, by the way) a um estatuto de Arte (entendida como ciência da experiência).
Posso afirmar que sem o Cão Solteiro eu não teria existido.
Sei que a minha existência não serve como argumento para nada, principalmente para aqueles que gostam de um 'belo' texto proto-canónico com toques de um destes autores do realismo mágico lusitano com imaginário sótão da avó e metáforas que confirmam ideias generalizadas que só servem para comover os mais profundos devotos de um certo estilo 'de nova sinceridade geracional' levado à cena por actores conhecidos que em part-time são especialistas nas artes mais radicais (not) i.e. a nova ditadura opticamente correcta.
Ora, é justamente pela defesa do Futuro que é necessário que existam estruturas como estas: não é sobre mim! É sobre se queres que o futuro de alguém seja a sofrer novamente do paradigma de servente precário de um amo com uma arma na mão em forma de obra canónica que te dita a moral ou se queres que o futuro de alguém passe a ser o daquele que pode ter acesso às ferramentas de forma a poder trilhar o seu próprio caminho para que escape de ditaduras visíveis e invisíveis.
É disso que se trata. Não é de mim. É de todos. Há quem chame de 'interesse público' e há quem ache que seja o fim de um certo trend normativo nas artes oficiais do planeta. Eu acho o mínimo dos mínimos. Mas digo isto porque tive sorte! Talvez quando tenhamos todos desaparecido não exista ninguém para o relatar e também já não faça sentido interromper a starlette abraçado a um peluche num espectáculo a defender a ideia de luta contra fome ou a favor da igualdade ou de como temos saudades dos Gelados Dá-Cá com discursos destes tão profundamente desconfortáveis para uma ideia de Estado que só procura confirmar-se em tautologia pura e dura.
É disto que se trata. Não é de mim. É de todos.
[A Real apareceu mais tarde na minha vida, mas foi com ela e com o Fiadeiro que aprendi a deixar de pensar em relações duais, na verdade, a deixar de pensar na ideia de relação em sentido estrito, a mesma Real que tenho encontrado na boca de criadores pelo mundo fora e isto não é um exagero!, a mesma Real que nos empresta espaços, e quartos sempre que precisamos, a mesma Real que apoio inúmeros artistas e as mais diferentes actividades, e a mesma Real onde provei pela primeira vez o néctar dos deuses: suco de caqui. Acabar com a Real não é acabar comigo. É, de novo, acabar com uma ideia talvez demasiado metafísica: a ideia inclusiva de totalidade em potência.]