27/08/2024
Há os lugares em que vivemos e os lugares que vivem na nossa memória. Ou talvez a memória seja também um lugar em que vivemos. A memória está dentro de nós e nós dentro dela. Somos casa e inquilino ao mesmo tempo. Guardamos memórias e a memória guarda-nos nas recordações que vamos arrumando. Ou talvez seja a memória a escolher as recordações e a arrumar nas gavetas do tempo o que não quer deitar fora. Se calhar, a memória tem outras recordações para além das nossas. Se calhar é por isso que, às vezes, as nossas recordações dos lugares em que vivemos sejam tão diferentes daquilo que vemos quando regressamos a esses lugares. Às vezes, há mais distância entre a recordação e a realidade do que entre o passado e o presente. E magoa perceber isso. Magoa voltar a pôr os pés num lugar que só a memória visitava e perceber que a imagem de dentro não coincide com a imagem de fora. É uma traição. Não sei se da memória ou se da realidade. Talvez o melhor seja não voltar aos lugares que têm lugar na nossa memória e deixá-los estar tal como os recordamos. Na verdade, quanto mais longe dos olhos, mais perto do coração. As casas que habitam as memórias f**am sempre intactas na imagem que retemos delas. As outras casas, aquelas que moram nas aldeias e nesses lugares onde fomos infância, deixaram que o tempo levasse as telhas e até as paredes e as janelas cegaram e a alma f**a sentada à porta, sem coragem para entrar. As casas que moram nessas ruas onde fomos nós e que agora não reconhecemos desalojam-nos do que tínhamos a certeza de ter vivido. As casas não são as mesmas. Se ao menos houvesse uma loja que restaurasse memórias antigas…