24/10/2020
Paciente internada connosco há alguns dias, sempre simpática e lutava contra a covid.
Perdeu o marido na semana passada, que também estava internado connosco. Nem pôde despedir-se...
Ontem o seu quadro piorou, estava muito cansada e ao ser-lhe dito que seria entubada pediu ao médico: Não, doutor, por favor! Não faça isso! Eu sei que eu não voltarei.
Nesse momento, agradeci por estar de máscara e face shield. Assim, ninguém pôde ver as lágrimas que escorriam.
Tive que sair, andar pelo corredor sem rumo, respirar e voltar.
Penso que uma das piores coisas, deve ser ter consciência que em breve você poderá morrer e não poderá estar mais com quem ama. Como tenho medo disso.
Retornei... O paciente ao lado chorava.
Ela pediu o telemóvel para ligar à filha. Ligou em alta voz. Do outro lado, a filha em desespero, a rezar e a pedir a Deus com toda força pela vida da mãe. Mais uma vez não aguentei... Pode ter sido o último “encontro” dessa mãe com essa filha, sem um abraço, sem o conforto de estar com quem ama.
Demos-lhe a mão, rezei em silêncio, pedimos para confiar pq faríamos o melhor.
Mais tarde... o paciente da mesma enfermaria, internado também já alguns dias, agravou. Estávamos ao lado dele, a fazer de tudo que podíamos para estabilizar a situação.
Ele ainda consciente, perguntou: Posso dormir? Estou com medo de dormir e não acordar.
Respondi: Pode relaxar, estaremos aqui a cuidar de você.
Ele disse: eu sei que eu vou morrer esta noite. Realmente, ele sabia.
Aquele que chorou pela paciente ao lado, agora fechou o olho para não ver o da frente. E com certeza estava a pedir a Deus para que não fosse o próximo.
É inexplicável o que estamos a viver. Jamais seremos os mesmos. Que vírus maldito!”
Relato de uma profissional de saúde na linha de frente 💔