17/04/2025
Uma carta aberta sobre o filme “GENI"
Anna
Você abriu espaço para o debate. E é nesse convite que entramos — não em tom de ataque, mas em defesa daquilo que é urgente: **a dignidade da nossa representação**.
Geni é tr****ti. Isso nunca foi só uma canção do gigante Chico. Foi sempre uma denúncia viva, um corpo exposto à humilhação pública, ao apedrejamento social — e, ao mesmo tempo, à possibilidade de redenção. Ela nunca foi uma metáfora. Ela tem rosto, nome, suor, identidade. Geni é a rua, é o afeto rejeitado, é a tr****ti que sobrevive.
Se olharmos com honestidade a obra original — *Ópera do Malandro*, de Chico Buarque —, está ali, de forma nítida: **Geni é uma tr****ti**. Uma personagem dissidente de gênero, atravessada pelo desprezo social, pela solidão forçada, e também pela força de existir. Não é possível olhar para essa figura e apagar o que ela simboliza.
Por isso, precisamos perguntar:
**por que, em 2025, seguimos escalando mulheres cis para contar histórias que são visceralmente trans?**
Por que, num momento tão crucial para a visibilidade das nossas existências, escolheu-se Geni — e não, por exemplo, outra personagem de Chico, que poderia sim, legitimamente, ser vivida por uma mulher cis?
Há tantas narrativas para as mulheres cis no mundo. Por que tirar justamente essa de nós?
Essa escolha, ainda que não intencional, **simbolicamente nos mata**. Mata a nós, g**s, tr****tis, bichas e tantas existências dissidentes que enxergam em Geni um espelho. Nos apedreja outra vez. E quando isso vem de uma obra que se propõe a homenagear, o impacto é ainda mais profundo.
Essa não é uma crítica moral. É um chamado ético, político e artístico. Não se trata de censura. Se trata de escuta. De saber quem tem falado por quem. De entender que certas escolhas podem, sim, **continuar apedrejando as Genis do mundo real** — as tr****tis, as bichas, as dissidências que resistem.
A arte tem poder. Ela pode curar ou machucar. E, nesse caso, sentimos a ferida abrir outra vez.
Com respeito e luta,
Cia Artera de Teatro