08/08/2016
Medo de altura? (E de mudanças)
Se você reparar bem em mim vai ver que guardo uma semelhança com Harry Potter.
Bem no meio da testa uma cicatriz, ganha aos 5 anos de idade, fruto de uma peraltice, que me fez tomar um tombo de uma alta escada e me deixou ressabiada com altura pra sempre.
Aos 15 eu implorava para que meus amigos não se sentassem nos beirais da Pontifícia Universidade Católica, fugia compulsivamente das varandas e escolhia sempre viver nos andares baixos. (E eles devolviam descendo as rampas comigo em alta velocidade, lembram-se?)
Aos 16 resolvi ”perder” o medo de altura.
Aproveitei alguns amigos experientes em esportes radiciais e dos 16 aos 26 voei de asa, saltei de paraquedas, namorei um piloto de caça e voei de Mirage, fiz uma viagem linda de balão sobre a Esplanada numa data comemorativa. Comecei pela primeira vez a contemplar as vistas do alto.
O medo não me perdeu, mas foi f**ando quieto, pequeno e assustado com a minha pretensa coragem.
Com o tempo deixei o medo de altura um pouco pra lá, fui focar em outras mudanças possíveis de vida, escolhi bem algumas, nem tão bem assim outras.
No meio do caminho um filho (com muito medo de altura), mas que ainda não caiu me fez levantar o questionamento de como - se não pela experiência - ele aprendeu a ter medo.
Lembrei que talvez meu medo de altura não se devesse a queda, mas ao reforço de um discurso de cautela que todos faziam quando me viam arriscar: Desce daí menina, não faça, não tente…
Me descobri reproduzindo na cabeça dele o medo que eu tinha: assustador constatar que o medo aprendido podia ser ensinado e que era eu a fazer isso.
Bandeira vermelha: de novo ao começo, lá fui eu aos 34 anos desafiar o velho medo de altura, para desaprender e desensinar.
Rapel, 50 metros, ponte férrea, novos amigos e um paralelo reflexivo com o medo das mudanças que as vezes queremos ou precisamos fazer, mas que nos poupamos, por conforto. Abaixo um pouco do que eu pensei durante o trajeto.
BOLDLY SET UP YOUR MIND
Grande parte do medo da mudança é vencido ainda antes da experiência.
E ele é vencido quando você decide e se aplica a fazer algo. Mudar de emprego, sair de uma relação que não é mais produtiva, trocar de casa, arriscar-se a empreender, grande parte do medo some quando estamos realmente convictos e comprometidos com a mudança e com a direção do para onde queremos caminhar.
No rapel esse parte do medo é vencido antes da descida. Quando você ainda fora da mureta observa o seu objetivo lá embaixo e pensa, eu chego.
FAÇA PLANOS, CAMINHE COM PACIÊNCIA E SOLTE A CORDA
Mudar requer não só uma tremenda vontade e motivação mas também alguma técnica.
Já ouviu a frase há milhões de esqueletos motivados a caminho do Everest? Você não quer ser um deles, certo?
Na vida ou nos negócios é sempre possível escolher f**ar confortavelmente onde se está ou arriscar a mudança.
Há espaço para todos os tipos de comportamentos e nem sempre os resultados de permanecer ou partir serão esperados.
Só há certeza da constante impermanência.
Entre ir e f**ar, saltar ou não as reflexões que devem considerar além de estilo, opções disponíveis e momentos de vida. Isto porque toda mudança signif**ativa depende de algum planejamento para se sustentar.
Ainda que você não tenha condições ideais de temperatura e pressão para agir, algum preparo prévio pode te ajudar: ter capital de giro para empreender, saber qual é o job description da função que você quer desempenhar no futuro e estar pronto pra ela, ter na cabeça quais os requisitos necessários para uma nova casa para você.
Neste item, na experiência do rapel, fui muito mal: não dormi direito, comi mal, não estava condicionada a fazer a trilha, errei na escolha das roupas, escolhi um desafio grande demais para a minha estatura.
O resultado imediato foi uma coleção impublicável de gafes pós uma olhada para baixo na paisagem.
Importante: Ao mudar é preciso estar preparado para todos os resultados, inclusive os ruins, e ter capacidade de ressignif**ar o que f**a de bom na experiência.
Efeitos colaterais sempre vão acontecer, nada muda sem alguns rompimentos.
O que ao descer parecia-se com alguma tragédia, já no chão estava sendo ressignif**ado: O medo deu lugar a acolhida dos amigos que estavam a minha volta, a gargalhadas, pela gafe, a certeza de que mesmo que o medo corporal estivesse lá, eu tinha vencido uma mini batalha interna: fui com medo mesmo.
Acho que o maior perigo que a gente corre no caminho de mudar é apegar-se demais a corda. A gente gruda ali como se pudesse sobreviver para sempre no meio do caminho, no alto, sem precisar subir ou descer.
Tende a olhar pro conforto de onde veio e nos momentos de mais crise pensa em voltar, questiona-se porque da escolha daquele caminho. Por que mesmo eu não fiquei lá?
No meu momento de crise na corda eu só lembro de ouvir o instrutor calmamente dizendo, está tudo bem, solte a corda, solte a corda… solte a corda… (e me lembrava de uma frase que eu repeti quando passei por outras mudanças… queime a ponte).
E aos poucos eu fui relaxando e soltando a corda e como mágica fui levada em segurança e calma ao chão.
TENHA CERTEZA DE ESTAR BEM ACOMPANHADO
Mais uma reflexão importante: na vida, nos negócios e no rapel tenha certeza de estar sempre bem acompanhado nas suas decisões: uma rede de amigos, familiares, profissionais, que possa te fazer as perguntas certas nos momentos mais críticos, que possa te ajudar a chegar no chão em segurança e te aconchegar com uma recepção calorosa é fundamental.
E sobre o medo, pode ser que ele sempre esteja lá, mas desafia-lo, com alguma segurança, pode ser uma forma de lembra-lo que quem manda nessa sua experiência fantástica chamada vida, é você.
O que me leva afirmar que sim, vou de novo, e com medo mesmo.
Agradecimentos especiais a turma do RapelSP pela paciência e pela discrição sobre as gafes, haha, e à voz longínqua e calma do Fernando Rych dizendo solte a corda... Agradecimentos mais especiais ao Antoun, Janice e Neidinha, que nos acolheram para um jantar surpresa. Desculpas especiais ao Alex, risos.
Resumo Oficial do dia com alguma liberdade poética:
Fiz uma estreia triunfal e memorável no rapel.
(Ninguém que tava lá vai esquecer)
Diverti muita gente com a minha perícia.
Tive muito auto controle, fui muito corajosa, risos.
Cometi feitos inéditos
Acertei os alvos.
E ganhei pra sempre o direito da 1a descida