11/08/2026
Uma tarde, quase noite, acabou a luz no Braca.
Microfones mudos. Caixas desligadas. O bar mergulhado no escuro. E foi aí que o samba mostrou o que é.
F**aram um violão de sete cordas, uma caixa de fósforos e algumas pessoas que ainda sabiam sentir.
Wilson Risada começou a cantar “Cordas de Aço”, de Cartola.
Aquela voz grave entrou no escuro como se viesse de muito antes de nós.
Ninguém falava.
Alguns choravam.
Eu filmei aquela cena quase religiosa e, depois, perguntei:
— Wilson, o que é isso? Você tem noção do que essa voz provoca?
Ele riu e respondeu:
— É o canto dos escravos.
Nunca mais esqueci.
Porque talvez ele tivesse explicado o samba inteiro numa frase. Samba é isso.
É a dor que aprendeu a dançar para não enlouquecer.
É saudade com ritmo.
É um povo chorando escondido atrás de um sorriso.
É transformar amor, fome, paixão e morte em refrão para conseguir chegar vivo ao domingo seguinte.
Mas, desta vez, o domingo chegou sem Wilson.
De sábado para domingo, Risada nos deixou.
Filho de São Jorge, contas de Ogum no peito, sorriso fácil, educação rara e sempre debruçado sobre o tantan como quem conversava baixinho com a própria vida.
Wilson não batia no couro, confessava segredos.
E agora f**a o silêncio.
F**a uma mulher tentando compreender como a casa pode continuar sendo a mesma sem a voz dele dentro.
F**am os filhos descobrindo, da maneira mais injusta, que chega um dia em que a gente procura o pai pela casa e ele só responde dentro da memória.
A pessoa vai embora, mas os seus pequenos hábitos continuam chegando antes dela.
Uma cadeira.
Um cheiro.
Uma risada.
Uma música.
E, de repente, tudo vira saudade.
Foi muito bom ser seu amigo, Risada.
Muito bom mesmo. Daqueles privilégios que a vida concede sem avisar que um dia cobrará em lágrimas.
Nunca mais haverá uma tarde de samba em que eu não procure, ainda que por um segundo, suas contas de Ogum, seu sorriso e aquelas mãos sobre o tantan.
A vida é um sopro. O samba também.
Mas há homens que passam tão bonitos pela vida que, quando morrem, não deixam silêncio.
Deixam eco.
Durma.
A roda continua.
Mas nunca mais será completa.
Silêncio. O sambista está dormindo.
✒️ Christian