04/09/2023
Crônica do dia
Quando a primeira crônica foi lida, disseram, “oh, que maravilha!”. Nem parecia um ser humano que a tinha escrito, coisa de deus. Ela se espalhou tão rapidamente como a fofoca, a peste ou uma pandemia. Da noite para o dia, todo mundo, todo mundo queria ser cronista. Tempos de bonança, de invenção de mundos, das boas vindas do de lá para cá. A itinerância das seres com suas coisas pelo mundo afora trazendo novidade, câmbios e intercâmbios.
Depois, depois, muito das cidades ficou cinza. Novidade, nenhuma. Daí, quando essa crônica foi segundamente lida, disse-se que não havia uma migalha de valor no que ali estava sendo escrito. Zombaram, disseram que lhe faltava a vida, que viva mesmo era a poesia. Disseram ainda mais, que lhe faltava a profundidade do romance.
Mas como ela insistisse, incubada e inserida no contexto, o passar do tempo deu-lhe o diagnóstico definitivo, crônico. Daí, toda manhã enquanto a vida ainda amanhecia, ela chegava junto com as fofocas, novidades e notícias, frescas e claro, crônicas.
Diacrônica ou anacrônica penso que sendo tenra ou terna segue eterna, com seu pavio curto e instantâneo, como o milho da pipoca. As pessoas vão abrir as janelas querendo as novidades, o sol que se alevanta. Assim, da noite para o dia enquanto a vida vai perdendo sua carga de poesia, a crônica ressurge para anunciar essa tristeza dos tempos, ou mesmo a alegria de algum porvir.
Um episódio que remoçou a crônica foi a chegada dos europeus às Américas. A novidade era tanta que logo se escreveu muitas cartinhas sobre o encontrado. Outra manhã que trouxe uma boa crônica para os lados de cá foi quando amanheceu nas praias brasileiras toneladas de latas de maconha. F. Abreu viu isto com bons olhos, viu em todo acontecimento um suingue, um balanço. Um funk. Por essas e por outras segue a crônica, adiantando uns lados, atrasando outros, mas sempre a correria.