06/07/2020
Agô.
Peço licença aos mais velhos e peço licença aos mais novos.
Hoje encerramos um ciclo. Mas a vida é feita de continuidade, então o fim não é de fato o final desta jornada. Estou aqui olhando para a tela do computador escrevendo esta breve despedida. Lembrando de tantos dias que eu passei no Estação Glória, relembrando os sambas que eu cantei, e de todos os outros sambas que eu fugi para não trabalhar.
Ora, que trabalho complicado o meu agora. Era só para eu escrever uma nota de agradecimento e juro que no meio disso tudo, eu estou fazendo o que minha mãe pediu, mas quando eu penso no Estação Glória... Me vem tantas lembranças boas, me vem à cabeça as várias rodas de samba, e eu tenho algumas especiais. Teve a roda de samba do dia que eu passei para a UERJ, e tiveram as várias rodas de samba que eu sofri por amores não correspondidos, essas foram várias na verdade. Porém lembramos da alegria, tristeza era jogada para longe quando cantávamos a plenos pulmões. Eu via no rosto da minha mãe a alegria de voltar para Oswaldo cruz e Madureira, quando no samba esses nomes ecoavam pelos salões. Nesse mesmo salão vimos a Portela ser campeã.
Nas paredes os desenhos de quem começou há muitos anos atrás aquela primeira noite de samba. Do alto, a nossa eterna velha guarda olha vigilante todas as outras velhas guardas que passavam pelo salão. Vi tantas pessoas cantando e tocando, as fotos nas paredes misturava o ontem e o agora, todos nos olhavam dizendo que o samba estava longe de acabar, e está mesmo.
São jorge protegia a casa e a cozinha.
Ògún ieé!
Ali do alto, em cima da janela da cozinha ele era vigilante. Dali ele abençoou tantas e tantas feijoadas feitas para ele.
Ai aquela cozinha... Tinham noites que pareciam ter duas festas, uma lá no salão e a outra na cozinha. A melhor festa, na minha opinião, começava quando as portas se fechavam. No ar, ainda a mistura de cheiros e temperos dava uma fome gigantesca, ali naquele momento o tempo parava, ali o tempo era eterno. Na saideira o tempo é relativo, você pode viver várias vidas em uma saideira.
Era tarde, dependendo, cedo. Uma cerveja se abria, mas ainda tinha que lavar os copos, o feijão ainda estava quente, não precisava esquentar o arroz. Uma voz falava alto do fundo. Lili pedia o seu bom bife, bem mal passado, Dona Glória e Marcelo pediam um também. Do nada alguém estava cortando alguns legumes, barulho de garrafa… mais uma cerveja aberta, às vezes um amigo continuava muito bem encontrado na saideira, depois finalmente outra saideira, mas a conversa está tão boa… mais uma saideira. Gargalhadas, o sol despontava da janela da cozinha, o campo do estrela tem um brilho muito especial no amanhecer, um barulho vem lá de fora.
O segundo ónibus estacionava, ele era o alarme avisando: “hora de dormir”.
Tivemos muitos dias ruins, estamos tendo dias ruins, mas o Estação Glória sempre foi movido a samba. E como todo bom samba, tem um pouco de tristeza, mas ela vai embora quando a alegria do samba chega. No final a nossa saideira é silenciosa, porém em cada roda de samba em São Pedro vai ter um pouco do samba do Estação Glória. A ancestralidade ecoa nos tambores e nas cantorias, o Estação Glória vai ecoar em cada roda de samba e em cada cantoria.
Recomendo, acabe esse texto e coloque um samba e vamos beber uma saideira.
A comida você ainda vai poder levar nas quentinhas da minha mãe. Vai lá, no novo endereço você ainda mata a saudade do feijão. E mate a saudade por mim, estou longe e ainda sem saber quando vou voltar, mas saiba, estou morrendo de saudades de vocês e da feijoada da minha mãe. Com a mudança ela vai ficar um tempo sem poder fazer as quentinhas, mas vamos avisar aqui quando você já puder levar para casa o sabor da cozinha da Dona Glória.
Por aqui vou pedindo a minha saideira, já coloquei um samba e vou olhar para o céu me imaginando em uma última noite no Estação Glória. Nos vemos em breve e fiquem bem, vamos nos cuidar e cuidarmos uns dos outros.
Que Exu guarde nossos caminhos.
Laroyê!
Oxalá também.
Èpao, èpa bàbá!
Obrigado Dona Dirce e Família.
Obrigado a todas, todos e todes!
Axé!