09/06/2026
Senta que lá vem história…
As muralhas costumam ser construídas para impedir a entrada de algo. Em Ch*****ne, uma das mais célebres foi erguida para preservar uma encosta. O termo clos, herança da tradição monástica medieval borgonhesa, designa justamente um vinhedo cercado por muros, delimitado não apenas fisicamente, mas conceitualmente: um pedaço de terra considerado distinto do restante do mundo.
Poucos justificam tão bem a separação quanto Clos des Goisses.
Adquirido pela família Philipponnat em 1935, o vinhedo ocupa uma vertiginosa encosta voltada para o Marne. Em uma região cujo prestígio foi construído sobre a luta permanente contra o frio, Goisses constitui uma pequena rebelião climática. Sua inclinação, entre 30 e 45 graus, permite uma incidência solar incomum para Ch*****ne, criando um microclima capaz de registrar temperaturas significativamente superiores às das parcelas vizinhas.
A própria palavra Goisses deriva do antigo dialeto local e pode ser traduzida como “encosta íngreme”, uma definição tão objetiva quanto insuficiente. Afinal, a história do vinho está repleta de declives severos. O que distingue este é a forma como transforma uma aparente desvantagem agrícola em uma das mais celebradas expressões de maturidade da região.
Em uma denominação que fez da acidez sua assinatura e da delicadeza sua moeda de prestígio, Clos des Goisses frequentemente produz vinhos de volume, profundidade e potência pouco usuais. Há quase uma provocação geográfica no resultado: enquanto boa parte de Ch*****ne busca proteger as uvas do excesso de austeridade, Goisses parece constantemente negociar com o limite oposto.
Talvez por isso tenha se tornado um dos raros vinhedos da região cujo nome rivaliza em notoriedade com o do produtor. Fenômeno incomum em Ch*****ne, onde tradicionalmente a maison eclipsa a origem específica. Em Clos des Goisses ocorre o contrário: a encosta se impõe sobre a marca, lembrando que, por trás da arte do assemblage, existe um velho princípio borgonhês que insiste em sobreviver — o de que alguns lugares falam mais alto que seus proprietários.